A REFORMA
LUTERANA
No dia 31 de outubro comemora-se a
Reforma Luterana. Nesta mesma data em 1517, Martinho Lutero pregou às portas da
Catedral da cidade de Wittenberg, na Alemanha, as 95 teses que marcam o início
do movimento do qual nasceu a Igreja Luterana.
Mas não são as teses de Lutero o motivo
pelo qual a Reforma é lembrada. Isto se deve porque o movimento da Reforma
restabeleceu o conceito bíblico sobre as três colunas básicas do cristianismo,
que são: As escrituras, a graça e a fé.
A respeito das escrituras – a Bíblia
Sagrada – cremos ser ela a Palavra de Deus em que o próprio Deus nos diz quem
ele é, quem somos nós, e tudo quanto ele nos oferece. Por isso reconhecemos a
Bíblia como única e suficiente norma de fé e conduta cristã. O apóstolo Paulo
fala da Bíblia como sendo “as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a
salvação pela fé em Cristo Jesus”. (2 Timóteo 3.15)
A respeito da graça de Deus, conforme o
claro testemunho da Bíblia, cremos que Deus oferece, através de Cristo, o
perdão dos pecados e a salvação eterna, sem exigir de nós qualquer pagamento,
porquanto Cristo, mediante a sua vida santa e o seu sacrifício expiatório,
pagou total e integralmente o preço da redenção de nossas almas. E tendo sido
desta forma satisfeita a justiça de Deus. Deus oferece de graça, tanto o perdão
total dos nossos pecados, como a salvação eterna a todos os que crêem. O
apóstolo Paulo diz: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo
justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo
Jesus.” (Romanos 3.23 e 24)
A respeito da fé, cremos ser ela a
certeza de que tudo quanto a Bíblia diz sobre nós e sobre Deus é verdade. A fé,
pois, aceita a graça de Deus, confia no perdão e espera a salvação. A fé é um
dom de Deus. O apóstolo Paulo diz: “Justificados mediante a fé, tenhamos paz
com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus cristo. E gloriemo-nos na esperança da
glória de Deus.” (Romanos 5.1 e 2)
A compreensão bíblica dessas três
colunas do cristianismo é um dos grandes motivos porque os luteranos comemoram
a Reforma. Escrituras, graça e fé são também o fundamento sobre o qual os
filhos de Deus edificam suas vidas; são os parâmetros que nos orientam em meio
a tantos desvios de conduta que presenciamos diariamente em nossa sociedade.
Escrituras, graça de Deus e fé em Deus, são fontes da “esperança da glória de
Deus”. Amém.
Pastor
Paulo Kerte Jung
A ROSA DE LUTERO
O Selo de Lutero (também conhecido como Rosa de Lutero ou Brasão de Lutero) é o símbolo mais conhecido do Luteranismo.
A Rosa de Lutero é uma representação do
mundo e um testemunho e resumo gráfico da fé luterana. Seu significado
representa um caminho ao coração de Deus: No centro do selo encontra-se a cruz
negra, lembrando a prisão, julgamento, condenação e crucifixão de Jesus Cristo.
Esta cruz negra é envolvida pelo
coração vermelho, que segunda a fé luterana lembra o amor de Deus por sua
criação, sua misericórdia e seu envolvimento com a salvação da humanidade. O
vermelho simboliza o sangue, paixão, um doar-se total ao objeto do amor. A cruz
negra e o coração vermelho estão envoltos por uma rosa branca. A flor suscita
aos crentes a lembrança do amor de Deus, que envolveria a humanidade em sua paz
(por isto a cor branca).
A rosa branca, por sua vez, está
rodeada por um campo azul, lembrando o céu, o Reino de Deus, reino para o qual
Cristo apontou em sua vida e pregação. Os evangelhos lembram que, a partir de
sua ressurreição, Deus criou novas todas as coisas. Assim, a paz do cristão é o
envolvimento com o Reino de Deus, com o projeto de vida de Deus ao mundo. Este
campo azul é delimitado pela aliança de ouro, lembrando ao crente que Deus fez
uma aliança com a humanidade através da morte e ressurreição de seu filho
Jesus, morte e ressurreição da qual todo o crente hoje participa através do
batismo e da Santa Ceia, ação de graças, através dos quais os fiéis têm a
promessa de que o próprio Jesus está entre eles.
QUEM FOI
LUTERO?
Martinho Lutero nasceu na pequena
cidade de Eisleben, na Alemanha, no dia 10 de novembro de 1483. Ele recebeu
esse nome em homenagem a São Martinho, que era o santo do dia em que ele foi
batizado. Desde pequeninho ele ouvia falar sobre Jesus. Mas como seus pais eram
muito rigorosos, ele achava que Deus também era assim. Com sua família Lutero
também aprendeu a amar e a temer a Deus.
Quando Lutero fez 15 anos, viajou para
uma cidade chamada Magdeburgo. Lá ele ia continuar estudando. O estudo era
oferecido pelos monges, de graça. O que ele tinha que fazer era arrumar um
lugar para ficar e também o que comer. Mesmo assim, não era fácil para Lutero
conseguir isso. Ele cantava de casa em casa, pedindo doações em troca. Mas
apesar de todo o seu esforço, não deu para continuar morando naquela cidade e
ele teve que voltar para casa. Só que seus pais não queriam que ele parasse de
estudar. Então arrumaram outra alternativa: mandar Lutero para a cidade de
Eisenach. Lá moravam alguns parentes da família, que poderiam ajudá-lo a
continuar estudando. Como Lutero era um aluno bom e dedicado, logo foi indicado
pelos seus professores para estudar na Universidade de Erfurt.
Lutero tinha 18 anos quando entrou na
Universidade de Erfurt. Como seu pai queria que ele se formasse em Direito,
começou a estudar as Leis. E foi na biblioteca da Universidade que, pela
primeira vez, ele viu uma Bíblia. Mas assim como a maioria das pessoas Lutero
também tinha dúvidas, pois achava que fazia coisas que Deus não gostava. E cada
vez que acontecia, olhava para o convento dos monges agostinianos, que ficava
perto da Universidade. Pensava que se ele se tornasse um monge e se dedicasse
bastante a Deus, seria perdoado. Então Lutero resolveu ser monge.
O perdão de
Deus
Depois de tomar essa decisão, sem falar
com os seus pais, Lutero foi até o convento para fazer seus votos de castidade,
pobreza, obediência e fidelidade. No convento, aos poucos, foi ficando triste
com o que via. Descobriu que muita coisa que os monges pregavam não passavam de
grandes mentiras. Mesmo assim, continuou lá e, em 1507, tornou-se monge. Isso o
deixou muito alegre, pois ele pensava que como padre, poderia fazer coisas
maiores e mais importantes para Deus.
Nessa época Lutero acreditava que
somente teria o perdão de Deus, se fizesse coisas boas. E, para conseguir isso,
também como monge, Lutero era muito rigoroso, procurando ser sempre fiel ao que
diziam as Sagradas Escrituras e a igreja. Como ele achava que Deus era muito
bravo e ficava triste com as pessoas que não lhe obedeciam, cada vez que
julgava ter feito algo errado, se punia, passando fome, frio, dormindo no
chão...Tudo isso era para que Deus lhe perdoasse. Mesmo assim, Lutero
ainda não tinha encontrado a paz que tanto queria. Não tinha conseguido ainda a
certeza de que Deus era seu amigo também. Um dia então, um velho padre, vendo
como Lutero sofria, tentando buscar o perdão dos seus pecados, disse que ele
não precisava se preocupar dessa maneira. Jesus já tinha sofrido por todos nós
quando morreu na cruz, para conseguir o perdão dos nossos pecados. Lutero
queria saber mais: Como Deus me dá este perdão?
Três anos depois de entrar no convento,
Lutero foi convidado para ser professor na Universidade de Wittenberg. Com 25
anos, ele já era professor de filosofia e Bíblia e, cada vez mais, conhecia a
Palavra de Deus. Lutero chegou a receber o título de Doutor em Teologia. Com
isso, Matinho Lutero começou a se dedicar mais ainda ao estudo da Bíblia.
Quanto mais estudava, mais entendia o que aquele velho padre tinha dito sobre o
perdão dos pecados. Estudando a Bíblia, Lutero compreendeu que Deus ama e, por
isso, perdoa. Deus é tão amigo que mandou Jesus, seu filho, salvar as pessoas.
Lutero queria, então, que as pessoas soubessem que elas não ganhavam perdão
pelo que faziam, mas pelo que Jesus fez por elas. Ele morreu por nós. Se
acreditamos em Jesus e no amor que tem por nós nossos pecados estão perdoados.
É assim que Deus dá o perdão. Com Jesus vamos aprendendo a viver no amor que
Deus mostrou por nós.
A venda das
indulgências
Enquanto isso, em Roma, na Itália, o
papa chamado Leão X queria terminar de construir a Basílica de São Pedro. Para
conseguir isso, ele arrumou um dinheiro emprestado. Só que para pagar esse
empréstimo, o papa autorizou os padres a venderem indulgências. Estas eram
papéis que, segundo eles, garantiriam o perdão de Deus. Mas o perdão de Deus
não pode ser comprado. Deus dá o perdão de graça a todos, por causa de Jesus.
Apesar disso os monges da Igreja Católica saíram para vender indulgências por
toda a Europa.
Nessa época, Lutero já sabia que as
pessoas não precisavam se torturar e, muito menos, pagar para receber o perdão
de Deus. Ele explicava isso para as pessoas, tentando mostrar que a venda das
indulgências não era da vontade de Deus. Lutero quis, então, conversar com
outros monges, professores e também com as pessoas em geral sobre a venda das
indulgências. Para isso, colocou, no dia 31 de outubro de 1517, na porta da
igreja do Castelo de Wittenberg, uma lista com 95 idéias sobre como Deus
oferece o perdão às pessoas. Essa lista ficou conhecida como as 95 Teses de
Martinho Lutero e estava baseada na própria Bíblia.
A excomunhão
Em apenas duas semanas, toda a Alemanha
já sabia das teses. Pouco tempo depois, elas já eram conhecidas em vários
países da Europa. Além disso, foram traduzidas para outras línguas, e pessoas
de vários lugares do mundo começaram a discutir as questões que Lutero tinha
levantado. No ínicio, o papa Leão X não deu muita importância para o que Lutero
estava fazendo, mas, aos poucos, começou a perceber que a situação era mais
séria do que ele pensava. Foi então que chamou Lutero para conversar. Lutero
não chegou a ir a Roma, mas teve que se apresentar perante o enviado do papa,
cardeal Caetano.
O cardeal queria que ele pedisse perdão
em público pela sua onfensa à igreja. Lutero disse que não podia pedir perdão,
porque o que ele defendia era apenas o que estava escrito na Bíblia. Em 1521,
Lutero foi excomungado pelo papa, através de um documento chamado Bula Papal.
Tudo aquilo que Lutero pregava e todos os seus livros foram condenados à
fogueira. O objetivo era fazer com que todos os cristãos esquecessem Martinho
Lutero e sua doutrina.
Em junho de 1525, Lutero casou-se com Catarina de Bora, uma ex-freira.
Os dois tiveram seis filhos e abrigaram onze órfãos. Lutero publicou cerca de
400 obras durante a sua vida, incluindo comentários bíblicos, catecismos,
sermões e tratados. Também escreveu hinos para a Igreja. Parte de suas obras
estão publicadas em diversas línguas modernas.
Lutero
faleceu de derrame cerebral em 1546, aos 63 anos de idade, em sua cidade Natal,
Eisleben. Seu corpo foi sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg, onde, cerca
de 30 anos antes, havia afixado suas 95 Teses.
A IELB
LUTERANA, a
palavra vem de Lutero, Martinho Lutero, Martinus Lutheri. O doutor, o pregador,
o reformador, jamais pretendeu vincular seu nome ao movimento que liderou.
Aliás, se expressou contrário à idéia várias vezes. No Brasil, pouco depois do
descobrimento, por volta de 1530, há notícias de defensores das idéias de
Lutero chegados em São Vicente, SP. Séculos depois, encontramos luteranos na
Bahia e na serra do Rio de Janeiro. Sempre ligados a imigrantes vindos da
Europa, principalmente Alemanha e Países Baixos.
No início do reinado de D. Pedro I, foi constatada a necessidade de
colonização na parte sul do Brasil, fronteira importante para a segurança
nacional. Juntou-se a isso, a necessidade de emigrar da Alemanha, pequenos
produtores rurais e micro empresários, por questões econômicas de
sobrevivência, mas também da vontade de possuírem sua terra o que era
impossível aos que não pertenciam à nobreza européia. O tratado entre os dois
governos incluia a assistência espiritual aos imigrantes por conta do governo
alemão (prussiano), já que lá a religião oficial era a evangélica e aqui no
Brasil, a católica. Acontecia a primeira iniciativa organizada para pastores
missionários evangélicos atuarem no Brasil, formados e vindos da Alemanha
mantidos e coordenados por aquele governo.
Na mesma
época, luteranos e reformados calvinistas foram unidos por medida impositiva do
então governo da Prússia, o maior e mais importante estado alemão. Muitas
pessoas e grupos religiosos inconformados formaram novas igrejas com cunho e
confessionalidade puramente luterana, na doutrina e praxes. Tais igrejas não
possuíam as mesmas vantagens e prerrogativas da igreja evangélica oficial, o
que trazia determinado desconforto e pequenas chances de crescimento. Em menos
de duas décadas surgiram fortes lideranças, grupos se formaram, que decidiram
deixar a Alemanha trocando-a pelo então Novo Mundo, a América. Tudo ficou para
trás, muitas vezes: propriedades, familiares e amigos, mas havia a perspectiva
de que pudessem, mesmo que arriscando toda uma vida, praticar a religião dentro
de suas convicções e liberdade, a confessionalidade luterana. Foi assim que
surgiu nos Estados Unidos a The Lutheran Church – Missouri Synod, oficialmente,
no ano de 1847. Na sua organização e existência, ao final dos primeiros
cinqüenta anos, Missouri se sentia responsável e atuava no sentido de que outras
partes do mundo conhecessem as verdades cristãs-evangélicas, onde a Bíblia tão
claramente era explanada através das Confissões Luteranas.
Isso aconteceu em países com nichos de populações de língua alemã que
assim seriam atendidas inicialmente. A Índia foi o primeiro país, cinco anos
antes da virada do século. A revista bimensal DER LUTHERANER circulava
nos Estados Unidos, outros países na Europa, Ásia e América Central e Sul.
Pastores já formados, mesmo nas teologias evangélicas da Igreja Unida da Alemanha,
procuravam na revista as doutrinas e teologias da genuína igreja luterana.
No Brasil
O pastor
Brutschin, da região Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, escreveu carta ao
Sínodo de Missouri relatando conhecer a doutrina luterana do Sínodo, através do
periódico Der Lutheraner, e gostaria de entregar algumas congregações a um
pastor de Missouri, pois estava para retornar à Alemanha. Mesmo que ainda
formalmente ligado ao Sínodo Evangélico, pastor e congregação não arredaram pé
na sua posição de serem luteranos e não só evangélicos, o que permanceu por
quatro anos, até a transferência de pastor missouriano de cidade próxima. E
este foi o início do século XX, e o início da Igreja Luterana no Brasil.
Missouri enviou um pastor prospector (ou, perscrutador), Rev. Broders, para
realizar sondagem visando o estabelecimento de possível trabalho missionário
efetivo e sistemático, aos aglomerados populacionais de alemães, em especial
aos desassistidos espiritualmente, no sul do Brasil.
Broders teve
muitas decepções no início da pesquisa. Mas, felizmente, no sul do estado, na
região de Pelotas, houve acolhimento aguardado – certamente por ambas as partes
- resultando na fundação da primeira congregação evangélico-luterana. O grupo
formado por 17 famílias, todas de origem teuto-russas e pomeranos, se
organizaram oficialmente no dia 1º de julho de 1900, na Colônia de São Pedro,
interior de Pelotas. O nome desta primeira congregação, traduzido do alemão,
era “Comunidade Evangélica Luterana São João da Colônia São Pedro, 8o Distrito de Pelotas – RS."
Dados históricos
Igreja
Evangélica Luterana do Brasil – IELB
*Local de
fundação: São Pedro do Sul, RS
*Data: 24 de
junho de 1904
*Constituíram
oficialmente a igreja, 14 pastores, um professor e 10 congregações.
*O número de
membros batizados era cerca de 4 mil. Seu primeiro presidente foi o pastor
missionário Rev. Carl August Wilhelm Mahler e também pastor da primeira
congregação luterana de Porto Alegre, a Comunidade
Cristo.
Paulo Udo
Werner Kunstmann
Coordenador
do Instituto Histórico da IELB

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